Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 2
2. Como conversar com um fascista
O genocídio indígena , o massacre racista e classista contra jovens negras e pobres nas periferias das grandes cidades, a violência doméstica e o assassinato de mulheres, a homofobia, a manipulação das crianças, em palavras simples, o ódio ao outro cresce em uma sociedade em que está em jogo também o extermínio da política. Podemos dizer que as pessoas, indivíduos e grupos, odeiam, sobretudo, a política e que os políticos (salvaguardando exceções) odeiam o povo se quisermos pensar no ódio em nível praticamente sistêmico. Podemos nos colocar a questão quanto ao risco de que o ódio se torne estrutural, que venha a dar base a todas as nossas relações. Nesse contexto, a política é destruída sistematicamente em dua linhas: pelos políticos que a transformam em burocracia: pelo povo que a neglicencia e se desinteressa dela. Talvez a destruição da política seja a verdade oculta na razão de Estado atual. Todos sabem, mesmo que não tenham palavras para expressar, que a política foi transformada em burocracia e que os governantes garantem burocraticamente seu emprego eterno estimulando o ódio nacional ao poder político. Não há maneira melhor de destruir a política do que fazendo uso eficiente do ódio.
Para destruir o outro é preciso destruir a política. Para destruir a política é preciso destruir o outro. Destruir o outro garante o fim de sujeitos de direitos e o fim do direito dos sujeitos. É preciso humilhar e aviltar pessoas e populações evitando assim a realização da democracia que propõe uma sociedade inclusiva para todos. Ao mesmo tempo, nesses contextos é útil usar a palavra democracia magicamente, como se já estivesse realizada.
Como se manipula o ódio? É muito simples. Por um processo de intrigas miúdas e de fomento à insuportabilidade da diferença. Quem sente ódio antes sentiu medo e antes ainda sentiu inveja. Temer se torna um verbo intransitivo. Assim como invejar. Na cultura da inveja e do medo não é preciso saber por que se inveja e se teme. É preciso invejar e temer intransitivamente. Falaremos mais sobre isso no capítulo final. Por enquanto precisamos saber que os investimentos afetivos são em idiossincrasias. As diferenças de classe, raça, gênero e sexualidade, além do padrão da normalidade física, são o foco do afeto odiento que não resiste sem a inveja e o medo. É preciso intensificar a diferença através de sua própria marcação para se localizar um alvo contra o qual agir por palavras e atos.
Podemos assim dizer que o ódio transita entre nós. Mas o curioso é que isso não acontece somente de maneira inconsciente. Há algo assustador no ódio contemporâneo. Não se tem vergonha dele, ele está autorizado hoje em dia e não é evitado. A estranha autorização para o ódio vem de uma manipulação não percebida a partir de discursos e de dispositivos criadores desse afeto. Somos seres capazes de amar e odiar. O motivo pelo qual amamos é inversamente proporcional ao porque odiamos. No primeiro caso construímos, no segundo, destruímos.
Ora, sabemos que os afetos são sempre aprendidos. Eles de formam em nós por experiências. O fascista é impotente para o amor porque viveu experiências de ódio. Experiências sensíveis e intelectuais. Ele introjetou o ódio muito antes de poder pensar nele. Sempre pensamos o que pensamos motivados por elementos afetivos. Todos os pensamentos de quem sistematicamente odeia como o fascista têm como fundamento as potências violentas do ódio.
Sabemos que é preciso exterminar a política para que o capitalismo no seu estilo selvagem (tendencialmente, sempre selvagem e bárbaro) se mantenha: poucos muito ricos, muitos explorador, outros tantos cada vez mais afundados na via da miserabilidade. O extermínio é calculado: quem não produz e consome segundo os padrões do "capital" não tem lugar. O ódio gera um não lugar, o espaço habitado pelo excluído que não é um lugar político, mas antipolítico. A luta dos excluídos é por saírem desse lugar ganhando voz e chance de sobreviver. Em uma política verdadeiramente democrática deveria haver lugar para todos, para vários modos de produção da existência e de subsistência que não precisassem seguir o ordenamento do capital, voltado a si mesmo, apenas à sua própria manutenção e reprodução a partir da devoração do outro. Núcleo substancial, verdadeiramente teológico, do capitalismo, o capital é uma espécie de unidade absoluta a que tudo serve. A violência gerada ao seu redor para sustentá-lo não tem medidas.
A democracia deveria ser a contraposição a essa unidade absoluta, mas ela é manipulada no capitalismo como se fosse ela mesma essa unidade, o que de melhor poderia nos ter acontecido em termos sociopolíticos, Outra democracia, portanto, uma que se dispa de máscaras, está em jogo em uma crítica do capitalismo. Uma democracia como ruptura com os jogos de opressão, dominação e exploração seria a antecipação de um sonho. Essa democracia que não se tem e que, no entanto, se deseja é a que está em discussão. Uma democracia radical. No entanto, o próprio extermínio do desejo de democracia é essencial para a manutenção do sistema de opressão a que damos o nome de capitalismo que usa a democracia como uma máscara, uma fachada. Isso é possível por meio da mera propaganda da democracia que a reduz a mercadoria ao simplificá-la a discurso. Mas algo mais essencial que isso é necessário.
É nesse ponto que entra o autoritarismo efetivado na prática diária. O que podemos chamar de autoritarismo cotidiano. Ele é feito daquilo que alguns chamam de microfascismos. Do autoritarismo em geral depende o capitalismo. Mas ele não sobrevive se não é sustentado no cotidiano. Ao mesmo tempo, o cotidiano é um lugar em geral desprezado pelas críticas mais consistentes. Do autoritarismo depende o extermínio da democracia como desejo é preciso que o povo odeie e é isso o que o autoritarismo é e faz. Ele é o cultivo do ódio, de maneiras e intensidades diferentes em tempos diferentes. Ás vezes um ódio mais fraco, às vezes um ódio intenso servem à aniquilação do desejo de democracia.
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