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Mostrando postagens de outubro, 2020

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 37

 37. Toda mulher é "estuprável" ou o sexo é apenas lógico No caso da história contada anteriormente, a moça não foi estuprada por Gervais, mas era considerada por ele "estuprável". Foi para a fogueira porque se recusou ao sexo, mas também porque julgou o sexo que era dela demandado como algo que a prejudicaria. Porém, o estupro potencial que podemos ver neste caso não era visto por Gervais como um estupro. Era, segundo sua lógica de estuprador, apenas seu "direito". O sexo nele implicado não era considerado algo hediondo e diabólico. Por um mecanismo projetivo pelo qual ela deveria ceder a um homem "irresistível", o próprio estupro era, naquele contexto, apenas uma espécie de sexo "lógico" na cabeça autoritária do estuprador. Não um estupro, porque estupro é um nome feio demais com o qual o estuprador não quer ser designado. O crime de Gervais não era, para ele, um crime. E por que não era um crime? Ora, simplesmente porque era ele - e ...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 36

 36. Condenação prévia e responsabilidade Esta situação perversa revela o que podemos chamar de "lógica do estupro", tal como ela funciona ainda hoje operando em nosso modo de pensar a relação sexual entre homens e mulheres (falo de homens e mulheres tendo em vista que estas categorias é que põem em jogo este tipo de violência). Na lógica do estrupo, a vítima - uma mulher - não tem saída: de qualquer modo ela será condenada quando, de antemão e sem análise, ela já foi julgada. Cedendo ao estupro ou não, ela será condenada. A vítima é sempre questionada segundo a lógica do estrupo que, desde a época da inquisição, era objeto de um sujeito que faria dela o que bem quisesse. O criminoso, na lógica do estrupo, não é questionado, porque ele é homem e, segundo a lógica do estrupo, não se objetifica um homem. Na lógica do estrupo toda e qualquer culpa recai sobre a vítima. Ao fazer recair a culpa sobre a vítima, o estuprador não é responsabilizado por seu ato. O estuprador projeta s...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 35

 35. A lógica do estrupo Em Eva e os padres, livro do historiador Georges Duby, lemos a história de um tal Gervais de Tilbury que, passeando entre as vinhas na região de Champagne, encontrou uma moça. No relato, Gervais de Tilbury acha-a atraente, fala-lhe "cortesmente de amor lascivo" prepara-se par ir mais longe. Ela o trata com rudeza, recusa-se: "Se perder minha virgindade, serei condenada." Gervais cai das nuvens. Como se pode resistir a ele? Sem dúvida, essa mulher não é normal. É uma herética, uma dessas cátaras que se obstinam em considerar toda cópula diabólica. Ele tenta trazê-la à razão, não consegue. Denuncia-a. Ela é presa. Julgada. A prova é incontestável. Ela é queimada (p.65). Alguém poderá pensar na ironia da situação, considerando as notícias daquela época quanto à abominação ao sexo por parte da Igreja. No entanto, estamos diante de uma narrativa de perversão. A partir da intenção de Gervais de Tilbury, a moça em questão estava encurralada: ou ced...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 29

 29. Luto proibido A compreensão do estado do luto em nossa cultura pode nos ajudar a entender o que tem sido feito em termos da administração social e cultural do sofrimento que experimentamos hoje. Se lembrarmos da definição de luto usada por Freud, o luto seria uma perda de objeto que implicaria um trabalho psíquico para acostumar-se à vida depois dessa perda. O luto seria normal quando superado, anormal, quando insuperável. Até aí, nada de mais, a vida das pessoas organizar-se-ia com a organização da dor. O sofrimento seria, mais uma vez, parte do cotidiano. O luto, o trabalho de superação. Qualquer pessoa em algum momento viveria o sentimento do luto porque, inevitavelmente, seria impossível viver sem perder algo ao qual se tivesse afeiçoado. Viver implicaria perder e enlutar-se, seria um tempo necessário a quem experimentasse a perda. O problema de quem é classificado como "deprimido" parece ser o de um luto profundo. Um luto interminável. Pensa-se, então, nas condições...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 28

 28. Depressão: uma questão cultural "Depressão" tornou-se o termo genérico para designar certo estado de sofrimento psicofísico característico de nossa época. Podemos dizer que o mundo se divide hoje entre os que estão deprimidos e os que, ao seu redor, estão perplexos e curiosos quanto ao que seja a depressão, suas causas, sua origem. Neste contexto, os discursos sobre a depressão proliferam. O campo do senso comum é invadido pelos discursos especializados, da psicologia e da psiquiatria. Um acordo entre teorias especializadas e teorias "populares" garante um saber geral quanto à depressão como um mal contemporâneo a ser extirpado. É certo que se a questão interessa a todo mundo, isso acontece porque todos experimentam em suas vidas algum nexo com ela. Todos estão de algum modo envolvidos com esse mal cujo nome mesmo realiza a coisa. Mas que mal esse mal realmente seria? A depressão parece ter se tornado um registro afetivo coletivo. Antigamente se falava em estad...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 27

 27. Histeria de massas Não é preciso conhecer teorias políticas sofisticadas ou compreender os discursos complicados de intelectuais para poder ser um cidadão que se expressa com coerência em termos de política. Digo isso pensando em como pessoas de um modo geral têm se expressado muito mal sobre questões muito sérias. Não creio que as pessoas possam ser tão fascistas quando estão sozinhas, comparado ao modo como se expressam quando estão em massa. O que autoriza cidadãos comuns a expressarem um ódio que, a meu ver, não é realmente e profundamente seu? Me pergunto sobre a criação da histeria de massas que levou a uma marcha como a do dia 15 de março de 2015. Evidentemente as pessoas foram capturadas no que elas mesmas conhecem de ódio e ressentimento. É fácil capturar o ressentimento, assim como é fácil capturar o desejo de felicidade, de amor, de sucesso. A publicidade sabe disso. A televisão, como aparelho que age na lógica publicitária usa o ressentimento e o ódio como estratég...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 26

 26. Vida como categoria política Antes de ser uma categoria médica ou biológica, a vida é uma categoria política. Como categoria política, a vida implica a nossa potência para a relação simbólica com o outro que é sempre uma relação de reconhecimento. Aquele que não reconhece a alteridade está morto. Está politicamente morto. Ora, quem está politicamente morto está morto. O cadáver é a objetificação total. Nele não há mais chance de estabelecer relação com o outro. Há cadáveres vestidos de morto fingindo estar vivos. De paletó e gravata, eles dão as regras do jogo - sempre político - dos outros que, juntos, permanecem vivos. O cadáver veste a fantasia do político profissional e sobe ao palco espetacular dos meios de comunicação. Ali ele lança seu vômito apodrecido contra a dança da vida que é dionisíaca dança da diferença. No cenário político brasileiro, há quem, sendo sensível como Virgínia Woolf, pense que seria melhor morrer de vez. Há quem se deprima e pense em se matar. A dep...

Com conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 25

 25. Em nome da angústia - Uma meditação sobre a morte O suicídio de Virginia Woolf em 28 de março de 1941 é um dado biográfico absolutamente especial. Ele faz pensar em aspectos da morte e do morrer. No gesto de cancelamento da vida pelo qual optou a escritora, podemos ver a depressão e a melancolia, ou a fuga de um mundo em guerra em tempos fascistas, inevitavelmente deprimentes para quem se mantinha ética e politicamente sensível. Talvez, ainda, Virgínia Woolf tenha praticado um último ato no sentido do direito à morte como direito de luta pela liberdade que é própria à vida pensada como categoria ética e política. Quem vai saber? Quem se contenta em resolver o problema da morte com aquela frase do filósofo Epicuro "não conhecemos a morte porque, quando ela chega, já não estamos presentes" sabe que se trata de uma frase de efeito que pode servir, em última instância, para evitar uma reflexão capaz de produzir muita angústia. Em tempos fascistas como os nossos, tempos que s...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 23

 23. Linchamento - Cumplicidade e assassinato O linchamento é um tipo de violência em cuja base estão as tensões sociais profundas que, embora possam explicá-lo, não servem de desculpa. Alguma "desculpa", no entanto, está sempre no cerne do linchamento. Ela é relativa à ação conjunta na qual todos agem em torno de um curioso acordo acerca da verdade que rege o motivo do linchamento. O ato de linchar configura um tipo de violência hedionda. Em primeiro lugar, por sua desproporção. Crime praticado por um grupo contra alguém indefeso, ele põe em jogo o procedimento do "todos contra um". Em segundo lugar , por sua fatalidade. Escapar de um linchamento só é possível por milagre. No meio do coletivo, não surge quem ouse defender a vítima. Ninguém vai contra a maioria. A ação não admite dúvida nem reflexão, por isso, quem pode fica quieto. Mas como se forma o grupo do linchamento? O que leva alguém a participar do ato? Três elementos combinam-se entre si permitindo a ação:...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 10

 10. Abertura Para que o diálogo ocorra é preciso haver o que chamamos de abertura ao outro. A abertura é própria da mentalidade democrática. Mentalidade que já viveu a experiência da abertura ao outro em função de circunstâncias cognitivas e culturais. A abertura não existe no caso de uma personalidade autoritária, fechada ao outro também por motivos cognitivos e culturais, motivos que incidem na formação da experiência pessoal e coletiva. A abertura à alteridade vai além de uma conversa em que põem em jogo argumentos. Ela tem um ponto decisivo no âmbito afetivo. Não do sentimento, apenas, mas do modo como nos "afetamos", no sentido em que somos "tocados" pelo outro. Esse afetar, esse "tocar" é do âmbito da ação. Existem afetações que acontecem sem que estejamos agindo intencionalmente. Necessariamente nos afetamos para o bem e para o mal. Mas no âmbito das intenções, como "tensões" que nos levam a agir, nos obrigam a pensar que a ação é também ...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 24

 24. Prepotência É bastante conhecida a passagem da Odisseia de Homero em que Ulisses encontra as sereias e , desejando ouvi-las sem enlouquecer, faz-se amarrar ao mastro do navio em que viaja, não sem antes alertar seus remadores para que tapem os ouvidos com cera e, desse modo possam continuar a travessia normalmente, Esta história encanta muita gente há muito tempo. Foi Kafka, no entanto, quem percebeu a ingenuidade de Ulisses, a de acreditar que o poder do canto das sereias poderia ser contido por cera e cordas. Ao perceber isso, Kafka diz que há algo mais terrível do que o canto das sereias. Segundo ele, se alguém pudesse escapar ao canto das divindades telúricas, todavia não poderia escapar ao seu silêncio. No canto de Kafka, Ulisses acreditou que as escutava. Mas as sereias não cantaram. E não cantaram porque Ulisses lhe pareceu um sujeito meio bobo com toda aquela parafernália usada para proteger-se do seu canto. Para entender Kafka, poderíamos nos perguntar mais ou menos a...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi -Capítulo 9

 9. Experimentum Crucis É neste contexto que podemos nos colocar a questão da qual proponho que façamos um experimentum crucis teórico-prático: como conversar com um fascista? Digo isso pensando que podemos avançar para além do discurso da denúncia ou da queixa que são formas primitivas ou "protoformas" da crítica. Penso no discurso do ataque que, na estratégia da humilhação, constrói vítimas. E de como podemos nos sentir vítimas do fascismo e simplesmente sucumbir a ele. O fascismo sobrevive na animosidade. Ora, quem é atacado nos posicionamentos discursivos e práticos do fascismo não deve contentar-se com a posição de vítima. Essa pode ser simbolicamente útil para construir direitos, mas também para destruir lutas. Colocar-se na posição de vítima pode ser um perigo e não garante a posição de sujeito de direito, ainda que se denuncie por meio dessa posição a desigualdade e a violência À qual se está submetido em uma sociedade cuja lógica é a exclusão. Contudo, não pode funci...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi -Capítulo 8

 8. "Tudo o que não presta" Nada do que possamos chamar de conhecimento pode ser concebido fora do seu registro ético-político. Se o registro do conhecimento funciona pela negação do outro, o conhecimento é negação de si mesmo. A rigor, não é conhecimento. Sem o outro, o conhecimento morre. O enrijecimento é a prova da morte do conhecimento que se tornou cegueira ideológica. A ideologia é a redução do conhecimento à fachada, como que sua máscara mortuária. O conhecimento, que deveria ser um processo de encontro e disposição para a alteridade que o representa, sucumbe à sua negação. Daí a impressão que temos de que uma personalidade autoritária é também burra, pois ela não consegue entender o outro e nada que esteja em seu circuito. O campo do outro não lhe é acessível porque ela não tem condições cognitivas para isso, mas, sobretudo falta-lhe a afetividade e a imaginação que são formas pelas quais nos aproximamos desse campo cujo epicentro é, em si mesmo, sempre inacessível. ...

como conversar com um fascista - Marcia Tiburi -Capítulo 7

 7. Um desafio teórico-prático O autoritarismo é um modo de exercer o poder, mas é também um ideário, uma mentalidade. E, mais ainda, é uma espécie de regime de pensamento. O autoritarismo é um regime de pensamento que afeta o conhecimento. Ele se instaura em termos ético-políticos, mas também estéticos. Isso quer dizer, no âmbito da formação pessoal, das relações sociais, mas também de um modo de vida elaborado em termos de um estilo de viver destrutivo e acobertador de sua destruição. Neste sentido é que podemos falar de um regime de pensamento democrático essencialmente oposto ao regime de pensamento autoritário. Como visão de mundo, o autoritarismo é fechado ao outro. Ele opera pelo discurso e pela prática sempre bem engrenados, que se organizam ao modo de uma grande falácia na qual o pensamento é, na verdade, produção de ausência ou, para usar a famosa expressão de Hannah Arendt, de vazio de pensamento. Um pensar autoritário que combate a liberdade e a expressividade do pensam...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 6

 6. Treino para o ódio Há séculos dizemos que "o poder corrompe" como se tivéssemos sido treinados para essa citação formal, sem que saibamos muito sobre seu conteúdo. Do mesmo modo que muitos dizem "tudo o que não presta" imitando uns aos outros no gesto espetacular de falar por falar. A fala por imitação se funda na citação. O autoritarismo é "citacionalista". Repete ideias lançadas no âmbito da propaganda fascista, ela mesma viciosa e repetitiva. O autoritarismo depende da sua repetibilidade. Ele é uma máquina de produção de inconsciência, de uma subjetividade deformada pelo discurso. Daí a importância da falação odiosa. Não pensamos no que dizemos. Para entender o conteúdo do que dizemos precisamos entender a forma com que dizemos. E isso é muito complicado. O diálogo é mais ainda por que não nos ocupamos em prestar atenção no que pode ser um diálogo, ele mesmo um modo de conversar cheio de potências e que facilmente se cancela se não insistimos nele. ...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi -Capítulo 5

 5. Paranoia como condição social Há épocas em que predomina o amor e épocas em que predomina o ódio. O problema inevitável ao se teorizar sobre o amor e o ódio é a impossibilidade de avaliar aquilo que é subjetivo e que, no entanto, nos domina. Experimentamos o ódio sem entender dele e, por não entendê-lo, muitas vezes não temos recursos para estancá-lo. Amor e ódio são dessas forças que, sendo opostas, ao mesmo tempo andam juntas compondo um jogo de forças. Ás vezes se aproximam demais. São como duas linhas que tendem a se enroscar enquanto flutuam no vento histórico. Pensamos em "cronologia", em progresso e decadência, mas nos tocamos pouco dos afetos que costuram e descosturam o continuum da história . Ora, poderíamos escrever a história do amor e a do ódio considerando que não há período histórico que não seja regido por eles. Seria a história das influências afetivas nas ações e realizações humanas. Assim, por exemplo, poderíamos contar a história da relação entre a hum...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi -Capítulo 4

 4. Afeto contagioso A pergunta pela origem do ódio não pode ser respondida senão pelo recurso ao círculo vicioso que explica o surgimento de qualquer afeto: é o sentimento experimentado que gera o que é sentido. Isso quer dizer que a tendência a ver um afeto como particular e natural perde de vista o caráter social de sua constituição. Os afetos são aprendidos, são compartilhados entre pessoas. Os afetos fazem parte de processos de cognição e formação subjetiva. Aquele que experimentou amor responde com amor, aquele que experimentou ódio responde com ódio. Amar se aprende amando. Odiar se aprende odiando. Deste modo, não podemos falar da origem cronológica de um afeto. O ódio não é implantado como um chip em uma pessoa e não se explica por uma "personalidade" naturalmente odienta por oposição a uma "personalidade" naturalmente amorosa. Nada é natural. A compreensão do ódio torna-se possível se ficarmos atentos ao caráter genealógico da experiência do ódio. Ele surg...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 3

 3. Máquina de produzir fascistas - A origem e a transmissão do ódio A expressão social do ódio nos deixa curiosos quanto a sua origem. Chamamos de ódio o afeto que se expressa como intolerância, violência projetiva ou, no extremo, declaração de morte ao outro. Pensamos que alguém - um Hitler qualquer - aciona o botão do ódio que liga a máquina de produzir fascistas que compõem a sociedade atual. Esta máquina é engrenagem organizada, uma espécie de dispositivo, que se utiliza do afeto odiento na orquestração do delírio coletivo ao qual a sociedade mesma é rebaixada. A aniquilação de certa ideia de sociedade, do senso do social, é sustentada no tipo de subjetividade fascista. A aniquilação da política é a aniquilação do social que precisa ser introjetada pela pessoa concreta, ela mesma cancelada como ser social. Seria necessário desenredar as amarras que sustentam o ódio delirante no qual ele foi envolvido como indivíduo quando acreditou que neste afeto residiria a verdade de sua ex...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 2

 2. Como conversar com um fascista O genocídio indígena , o massacre racista e classista contra jovens negras e pobres nas periferias das grandes cidades, a violência doméstica e o assassinato de mulheres, a homofobia, a manipulação das crianças, em palavras simples, o ódio ao outro cresce em uma sociedade em que está em jogo também o extermínio da política. Podemos dizer que as pessoas, indivíduos e grupos, odeiam, sobretudo, a política e que os políticos (salvaguardando exceções) odeiam o povo se quisermos pensar no ódio em nível praticamente sistêmico. Podemos nos colocar a questão quanto ao risco de que o ódio se torne estrutural, que venha a dar base a todas as nossas relações. Nesse contexto, a política é destruída sistematicamente em dua linhas: pelos políticos que a transformam em burocracia: pelo povo que a neglicencia e se desinteressa dela. Talvez a destruição da política seja a verdade oculta na razão de Estado atual. Todos sabem, mesmo que não tenham palavras para expr...

Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 1

 1. Questões preliminares: experiência política e experiência da linguagem ou o diálogo como desafio Como conversar com um fascista - reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro reúne reflexões sobre o estado psicopolítico e cultural de nossa época. O pressuposto que estrutura essas reflexões é que a política define-se como experiência de linguagem e que a qualidade dessa experiência nos une ou nos separa, tornando-nos seres políticos ou antipolíticos. Se nosso ser político se forma em atos de linguagem, precisamos pensar nessa formação quando o empobrecimento desses atos se torna tão evidente. O autoritarismo é o sistema desse empobrecimento. Ele é o empobrecimento dos atos políticos pela interrupção do diálogo. Interrupção que se dá, por sua vez, pelo empobrecimento das condições nas quais o diálogo poderia acontecer. Essas condições são materiais e concretas. Elas referem-se a mecanismos, na forma de dispositivos criadores de hábitos, que impedem as práticas de diálogo. E...