Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 6
6. Treino para o ódio
Há séculos dizemos que "o poder corrompe" como se tivéssemos sido treinados para essa citação formal, sem que saibamos muito sobre seu conteúdo. Do mesmo modo que muitos dizem "tudo o que não presta" imitando uns aos outros no gesto espetacular de falar por falar. A fala por imitação se funda na citação. O autoritarismo é "citacionalista". Repete ideias lançadas no âmbito da propaganda fascista, ela mesma viciosa e repetitiva. O autoritarismo depende da sua repetibilidade. Ele é uma máquina de produção de inconsciência, de uma subjetividade deformada pelo discurso. Daí a importância da falação odiosa. Não pensamos no que dizemos. Para entender o conteúdo do que dizemos precisamos entender a forma com que dizemos. E isso é muito complicado. O diálogo é mais ainda por que não nos ocupamos em prestar atenção no que pode ser um diálogo, ele mesmo um modo de conversar cheio de potências e que facilmente se cancela se não insistimos nele. Não o experimentamos na microfísica do cotidiano onde tanto poderia nos ser dito acerca de uma potência de transformação em termos macrofísicos. O diálogo entre o singular e o geral - entre o que somos (ou queremos ser) e o que nos rodeia - nos faria bem. Precisaríamos pensar mais, isso é certo, mas vivemos no vazio do pensamento, ao qual podemos acrescentar o vazio da ação e o vazio do sentimento. O vazio é o estranho ethos de nossa época.
Atualmente, como em todas as épocas em que o autoritarismo é a prática de extermínio da política, os cidadãos são chamados diariamente ao treinamento do ódio. Sabemos que nenhum afeto é totalmente espontâneo, que nenhum sentimento é natural. O treino para o amor ou para o ódio se dá pela repetição dos discursos. É preciso repetir e aderir, copiar e imitar. Falar por falar. Repetir o que se diz na televisão e nos meios de comunicação. Ficar muito tempo ouvindo a mesma coisa para dizê-la de qualquer jeito. Ou dizer sem pensar no que se diz. No gesto do mero "compartilhar" sem ler que se tornou fácil (tanto quanto o "comprar com um clique" pela internet), agimos no vazio. Estamos na mera reprodutibilidade da informação que nada quer dizer, mas que é análoga ao fazer. O fazer vazio é consumo. Fugimos do pensamento analítico e crítico pelo vazio consumista da linguagem e da ação repetitiva. Fugimos do discernimento que o pensamento analítico e crítico exige. Caímos no consumismo da linguagem.
Ora, a fuga do pensamento produz o seu vazio. O vazio gerado impede o pensamento. É que o vazio do pensamento não é silencioso, não é o vazio como espaço aberto onde poderíamos buscar conhecer o inusitado. É um vazio cheio de falas prontas. Cheio da propaganda que impede o nascimento do livre pensamento. Só a interrupção do círculo vicioso do vazio do pensamento, que gera pensamento vazio - repetitivo e imitativo -, é capaz de mudar o rumo destrutivo da política nos âmbitos micro e macropolíticos.
O ódio cresce e aparece no círculo vicioso do pensamento. Ele é o afeto avarento por excelência, o afeto de quem não tem absolutamente nada para dar- que fomenta a diabólica morte do diálogo. Política é, ao contrário, produção simbólica. É sinônimo de democracia se a pensamos como laço amoroso entre pessoas que podem falar e escutar não porque sejam iguais, mas porque deixaram de lado suas carapaças de ódio e quebraram o muro de cimento onde suas subjetividades estão enterradas.
A política como perfuração de muros ideológicos depende da persistência da resistência. Depende de aprendermos o que pode ser um diálogo enquanto guerrilha metodológica que precisa ser mais forte do que o ódio nesse momento. Não acabaremos com o ódio pregando o amor, mas agindo em nome de um diálogo que não apenas mostre que o ódio é impotente, mas que o torne impotente. O diálogo não é uma salvação, mas um experimento ao qual vale a pena somar esforços se o projeto político for coletivo.
Então precisamos começar a conversar de outro modo, mesmo que pareça impossível.
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