como conversar com um fascista - Marcia Tiburi -Capítulo 7

 7. Um desafio teórico-prático

O autoritarismo é um modo de exercer o poder, mas é também um ideário, uma mentalidade. E, mais ainda, é uma espécie de regime de pensamento. O autoritarismo é um regime de pensamento que afeta o conhecimento. Ele se instaura em termos ético-políticos, mas também estéticos. Isso quer dizer, no âmbito da formação pessoal, das relações sociais, mas também de um modo de vida elaborado em termos de um estilo de viver destrutivo e acobertador de sua destruição.

Neste sentido é que podemos falar de um regime de pensamento democrático essencialmente oposto ao regime de pensamento autoritário. Como visão de mundo, o autoritarismo é fechado ao outro. Ele opera pelo discurso e pela prática sempre bem engrenados, que se organizam ao modo de uma grande falácia na qual o pensamento é, na verdade, produção de ausência ou, para usar a famosa expressão de Hannah Arendt, de vazio de pensamento. Um pensar autoritário que combate a liberdade e a expressividade do pensamento. Isso se consegue no fomento ao clichê, na manutenção e repetição do pensamento pronto, o que podemos chamar também de pensamento publicitário. Neste último, importa mostrar uma ideia cuja potência não tem nenhuma relação com algo como uma força da verdade, que viesse a questionar certezas. O pensamento publicitário pretende agregar consumidores de ideias, em outras palavras, pretende vender uma ideia. Produz consumo de pensamento; consumo de linguagem. O âmbito da verdade (como desejo de descortinamento) é algo que está fora do jogo. O mesmo se dá no âmbito da ação que podemos chamar de "pseudoação", a ação repetitiva, a ação preprogramada, tal como é a do consumismo. 

Pensamento e ação se enlaçam e se organizam ao modo de um complexo - e ao mesmo tempo automático - imperativo teórico-prático, portanto, um modo obrigatório de pensar e agir, de alto impacto performativo: o outro não existe e se existe deve ser eliminado. Aquilo que, na introdução, designei por tratar alguém como se fosse ninguém. Esta performatividade manipulada não tem nada de espontânea, ela serve à manutenção do que chamamos de poder. Quem a pratica pode estar de acordo com o sistema, mas pode não etr muita consciência desse acordo. Fazemos acordos com o poder quando emitimos palavras e atos preconceituosos. Poder é uma dessas palavras que muitos usam e das quais muito se fala sem que se entenda muito sobre ela. O poder é o que produz um tipo de outro que precisamos compreender. Há, em cada regime de conhecimento, um tipo de produção do "outro". O outro nunca está dado, ele sempre é pensado. Ele sempre é, de certo modo, construído, mas mais que isso, ele é "materializado", "performatizado". O que chamamos de outro é produzido em cada regime. 

Ora, denotamos regime de conhecimento ao falarmos de autoritarismo. Realizamos uma operação mental relacionada ao outro quando falamos de conhecimento. Isso porque conhecimento é gesto cognitivo na direção do outro, do novo, do diferente, em uma palavra, do desconhecido. É justamente o outro que é destruído pelo autoritarismo. O autoritarismo inventa o outro para poder destruí-lo. Neste sentido, o que chamamos de conhecimento não acontece de fato no regime de pensamento autoritário. Nele, o conhecimento é máscara sem rosto. O que chamamos de ideologia, o ofuscamento das indesejáveis verdades sociais, tem relação direta com esse processo de mascaramento de si pela invenção de um outro a ser odiado. No fundo, uma operação de projeção está em funcionamento.

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