Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi -Capítulo 8
8. "Tudo o que não presta"
Nada do que possamos chamar de conhecimento pode ser concebido fora do seu registro ético-político. Se o registro do conhecimento funciona pela negação do outro, o conhecimento é negação de si mesmo. A rigor, não é conhecimento. Sem o outro, o conhecimento morre. O enrijecimento é a prova da morte do conhecimento que se tornou cegueira ideológica. A ideologia é a redução do conhecimento à fachada, como que sua máscara mortuária. O conhecimento, que deveria ser um processo de encontro e disposição para a alteridade que o representa, sucumbe à sua negação. Daí a impressão que temos de que uma personalidade autoritária é também burra, pois ela não consegue entender o outro e nada que esteja em seu circuito. O campo do outro não lhe é acessível porque ela não tem condições cognitivas para isso, mas, sobretudo falta-lhe a afetividade e a imaginação que são formas pelas quais nos aproximamos desse campo cujo epicentro é, em si mesmo, sempre inacessível. Se pensamos no outro enquanto espectro é porque ele não é rígido, ele é um sistema de representações feito de imagens justapostas, de níveis e categorias. Assim posso me relacionar com a ideia do outro, a imagem do outro, o corpo do outro. Pensar no outro, a favor ou contra ele, deriva, portanto, do afeto que preside o pensamento.
A propaganda é o método que sustenta a negação do outro. A propaganda fascista, a propaganda do ódio, prega a intolerância, afirma coisas estarrecedoras com alto teor performativo, ou seja, capaz de provocar efeitos e orientar ações. O que chamo aqui de propaganda não é a campanha publicitária. Mas a discursividade entranhada nas falas mais comuns. E nas falas nefastas do poder. No dia a dia, sobretudo em certas épocas de crise do capitalismo, vemos isso em profusão. Um exemplo interessante foi o de um deputado chamado Luis Carlos Heinze que apresentou, em discurso até hoje visualizável no You Tube, uma imagem perfeita do pensamento autoritário que exclui o outro. Em sua fala, que se tornou famosa, "quilombolas, índios, gays, lésbicas", representavam "tudo o que não presta". "Tudo o que não presta" é, sem dúvida, um modo de desqualificar os outros. No caso, os sujeitos "des"-qualificados na fala e por meio da fala do deputado eram minorias. Minorias historicamente oprimidas pelos atos capitalistas. Mas com a expressão ele atingiu a exposição do conceito fundamental do fascismo atual. Além de inscrever-se nele como sujeito de maneira evidente. "Tudo o que não presta" implica um rebaixamento das minorias indicadas em seu discurso ao que "não presta". Ora, o que "não presta" não presta para quê? Não "presta" para o sistema da produção e do consumo. Os "imprestáveis" são julgados do ponto de vista da utilidade ao sistema da produção e do consumo.
O "fascista", por sua vez, é o suprassumo da personalidade autoritária, aquela que impõe o ponto de vista do julgamento do outro pela utilidade. A lógica da medida. O fascista é o sacerdote do capitalismo cuja liturgia implica esse julgamento, ao modo de um batismo perverso, o outro é descartado e lançado à matabilidade.
"Tudo o que não presta" ao mesmo tempo se apresenta como uma resposta pronta, um clichê. Um exemplo de destruição do conhecimento enquanto desejo de descoberta, que vem a constituir uma relação como o outro. Desejo de conhecimento, que está na base do desejo de democracia. Autoafirmação de ignorância, assinatura da estupidez. Mas é, ao mesmo tempo, a destruição da política por um discurso antipolítico de um agente da governalidade, no caso, um deputado que deveria ser político, mas que está voltado para o instinto de morte antipolítico.
Em um caso como esse, podemos falar em prática discursiva perigosa, na qual é facil perceber uma tendência ao extermínio, à matabilidade. O discurso do extermínio era o foco último do que ali poderia ser uma pura determinação do outro. Exemplo perfeito do discurso alinhado com a "tanapolítica" contemporânea (a palavra thanatos significa morte em grego). Lembremo-nos do conceito de biopoder exposto por Foucault em sua História da sexualidade. Biopoder significa cálculo que o poder faz sobre a vida. Forma típica de exercer o poder na modernidade, quando já não se manda simplesmente matar, como na antiguidade - embora esse tempo e seus métodos ainda persistam dentro da modernidade em um curioso cruzamento cronológico -, mas simplesmente age sobre a vida, por exemplo, controlando os preços e a distribuição dos alimentos, a saúde e as moradias das populações. A exclusão é o processo que se garante pela imprestabilidade à qual tantos são lançados e pela qual são condenados.
A matabilidade, portanto, não desaparece. A mortabilidade diante da inexistência de políticas públicas e de um projeto radicalmente democrático de país é um resultado sempre garantido. Se o Estado não serve ao povo, serve às elites. O "tanatopoder" permanece atuando por meio do biopoder: calculando a vida para lançar na morte os que são marcados com a imprestabilidade. A imprestabilidade precisa ser garantida epistemologicamente, o que se consegue por meio do discurso, ele mesmo parte da ordem. Mas a quem esse tipo de discurso convence? Eis uma questão que precisamos nos colocar, até para poder combater essas formas de discurso ou para criar alternativas para a sobrevivência de uma política democrática, para uma política melhor, para um poder da diferença, um poder compreensivo que acolha aquilo que Walter Benjamin chamou "tradição dos oprimidos".
Ora, quem fala o que fala, sem nenhuma responsabilidade, por um lado deve ser legalmente questionado, por outro, é preciso trazer à luz quais condições na cultura, possibilitam fazer surgir falas como essa que, na desqualificação do outro, praticam uma humilhação simbólica, e mais, estimulam ódio e, assim, incitam à matança. Como alguém se autoriza ao discurso fascista? Como alguém é dele convencido? Theodor Adorno se colocava a pergunta pela suscetibilidade das pessoas à propaganda fascista. Quem é, afinal, suscetível à propaganda de um modo geral e suscetível à propaganda fascista? Se a propaganda fascista que é um tipo de discurso - e uma verdadeira metodologia de alienação social por meio da linguagem - continuar vencendo, não teremos futuro. E essa não é uma questão que deva ser esquecida, embora muitos prefiram que a teoria fique com o puro papel analítico que nos isenta de apontar caminhos. Uma pergunta projetiva se impõe filosoficamente nesse momento: em que direção devemos agir diante desse estado de coisas?
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