Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi -Capítulo 9
9. Experimentum Crucis
É neste contexto que podemos nos colocar a questão da qual proponho que façamos um experimentum crucis teórico-prático: como conversar com um fascista? Digo isso pensando que podemos avançar para além do discurso da denúncia ou da queixa que são formas primitivas ou "protoformas" da crítica.
Penso no discurso do ataque que, na estratégia da humilhação, constrói vítimas. E de como podemos nos sentir vítimas do fascismo e simplesmente sucumbir a ele. O fascismo sobrevive na animosidade. Ora, quem é atacado nos posicionamentos discursivos e práticos do fascismo não deve contentar-se com a posição de vítima. Essa pode ser simbolicamente útil para construir direitos, mas também para destruir lutas. Colocar-se na posição de vítima pode ser um perigo e não garante a posição de sujeito de direito, ainda que se denuncie por meio dessa posição a desigualdade e a violência À qual se está submetido em uma sociedade cuja lógica é a exclusão. Contudo, não pode funcionar como "estratégia" em tempos em que o poder está em mãos perversas, que almejam imolar vítimas no altar do Estado e do Capital. A estratégia pode transforma-se em armadilha.
Levando a sério o que dizia Adorno, filósofo que desconstruiu o fascismo, podemos dizer que "a vítima desperta o desejo de proscrever". Se o sistema do poder, se a religião do capitalismo, implica a culpabilização prévia do outro, se os "imprestáveis" são previamente marcados por existirem, é porque foram de antemão culpados. A questão da vida que não merece ser vivida está em cena. Segundo a lógica social que está em cena nesse discurso, os "imprestáveis" devem parecer porque não deveriam sequer existir. Se existem, são culpados e se são culpados, estão condenados. Assumir a posição de vítima que se confunde com a posição do culpado em nossa sociedade capitalista corresponde a expor-se e, dessa forma, abrir o flanco ao massacre.
Contra a posição da vítima, podemos pensar em outra posição. Chamarei aqui de postura do guerreiro sutil, aquele que assume uma espécie de "guerrilha" cuidadosa e delicada e desafia o poder desde a sua interioridade, desde seu núcleo duro, para desmontá-lo radicalmente. Se o poder é "falogocêntrico", ou seja, é fálico e funciona na discursividade, é preciso contra-atacar desarmando os "dispositivos" discursivos e práticos que estruturam o poder. Se o poder não sustenta o diálogo, e até mesmo o impede e evita, a questão seria, por exemplo, intensificá-lo.
Ora, o diálogo, em todos os seus níveis, é indesejado nos sistemas autoritários. As personalidades autoritárias não o cultivam, são incapazes dele. O diálogo, por sua vez, não é apenas uma conversa, muito menos uma conversa em que se disputa um argumento. O diálogo é o contrário do discurso e só ele pode "desarmá-lo". Somente ele pode desmontar o dispositivo sem tornar-se um novo dispositivo. Porque o diálogo é o desarmamento , a "des-positivação" essencial e metodológica de qualquer estrutura de "dispositivação". Estou usando o termo dispositivo aqui no sentido foucaultiano, isto é, como mecanismo que funciona reproduzindo aquilo que está dado. O diálogo é um contradispositivo cuja capacidade fundamental está em evitar a constituição de dispositivos que são em si mesmos repetitivos na reprodução do poder. Para Foucault o poder funciona por meio de dispositivos. O dispositivo é uma espécie de armadilha na qual nos enredamos sem poder escapar. O sexo é um deles, se quisermos um exemplo além do discurso, ainda que também dependa do discurso sobre sexo para se sustentar como dispositivo.
Se pensarmos no poder que com mais força e violência administra o discurso em nossa época, temos que pensar no que se chama de "mídia", o conjunto dos meios de comunicação. Se, por exemplo, os discursos dos meios de comunicação são construídos para evitar o diálogo, que leva ao pensamento analítico e crítico e, além de tudo, é construtor de laços cognitivo-afetivos, é preciso criar outras mídia que não apenas proponham outros discursos, mas que sejam capazes de instaurar processos dialógicos em sociedade. A questão "como conversar com um fascista" se torna um emblema do desafio democrático se pensamos que o ato de conversar seria apenas a porta de entrada de um processo de desconstrução que é o diálogo.
Dialogar é complicado justamente porque não se trata apenas de falar e ouvir, o que já é muito difícil. A evitação pessoal e cultural do diálogo deve ao fato da desconstrução que um diálogo promove. A complexidade do ato de escutar está em que, por meio da escuta, entro em outros processos de conhecimento. Torno-me outra pessoa.
Quem luta por direitos sabe que conversar com personalidades enrijecidas é impossível. O diálogo, contudo, precisaria transformar-se em metodologia. Assim como a psicanálise não é apenas uma conversa, mas um método em cuja base está a análise da linguagem, o diálogo é o método filosófico que deveria transformar-se em metodologia política. Justamente por ser metodologia política "natural", o diálogo deveria ser realizado. Estamos alienados do diálogo, impedidos dele. O diálogo como hábito nos é roubado diariamente. A tarefa filosófica de nossa época implica devolvê-lo às pessoas. Da possibilidade de perfurar a blindagem fascista por meio do diálogo depende a nossa sobrevivência como cidadãos.
O diálogo é, neste caso, a "metodologia democrática" básica que poderia operar em situações privadas ou públicas. Ele parece impotente diante do ódio. Ele parece delicado demais. Mas o diálogo em si mesmo é um desafio. Um desafio micropolítico cuja execução pode nos ajudar a pensar no que fazer e em como agir em escala macropolítica.
Estamos, nesse ponto, no terreno de uma estratégia teórico-prática. Esse desafio tem três tempos:
1. O tempo do outro como um tempo assombrado. Tempo apavorante enquanto o outro é sempre o desconhecido, aquele que ameaça em algum sentido a "minha"realidade, a minha ordem;
2. O tempo da abertura de si a esse assombramento. Esse tempo implica perceber-se como um outro, o que só se dá no imaginário e no discernimento cognitivo, pois jamais teremos acesso ao sentir e ao pensar do outro, assim como ele não terá acesso ao que somos, senão pela exposição do que sentimos e pensamos, o que não se dá sem mediações linguísticas, ou seja, sem expressões e comunicações bem-cuidadas;
3. O tempo interminável. A saber, o da permanência na experiência do diálogo. O tempo da sustentação da metodologia. Em outras palavras, para que o diálogo aconteça é preciso permanecer no tempo-lugar do diálogo . Insistir no ato de escutar e de falar para se fazer escutar no âmbito do encontro. A qualificação do diálogo pela insistência nele mesmo demonstra sua insistência pacifista. Não ceder aos afetos ressentidos que podem surgir no meio do caminho; permanecer tentando entender e, ao mesmo tempo, oferecer o desentendimento como dúvida, como oportunidade ao outro de relacionar-se com a diferença.
Em todos os sentidos, o diálogo é resistência. A escuta exige resistência física e emocional. Essa resistência é política, mas em um nível mais subjetivo, é ética. O diálogo é, ele mesmo, um mecanismo, um organismo, uma metodologia ético-política. A forma essencial da ético-política.
A diferença entre discurso e diálogo importa aqui. No primeiro a escuta serve à fala, no segundo, a fala serve à escuta. O diálogo não é a conversa entre iguais, não é apenas uma fala complementar, uma conversação amistosa, mas a prática real da escuta em que a dúvida, a pergunta, existe para abrir a si próprio e abrir o outro. Nesse sentido, o diálogo é aventura no desconhecido. Ato político real entre diferenças que evoluem na busca do conhecimento e da ação que dele deriva.
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