Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 35
35. A lógica do estrupo
Em Eva e os padres, livro do historiador Georges Duby, lemos a história de um tal Gervais de Tilbury que, passeando entre as vinhas na região de Champagne, encontrou uma moça. No relato, Gervais de Tilbury
acha-a atraente, fala-lhe "cortesmente de amor lascivo" prepara-se par ir mais longe. Ela o trata com rudeza, recusa-se: "Se perder minha virgindade, serei condenada." Gervais cai das nuvens. Como se pode resistir a ele? Sem dúvida, essa mulher não é normal. É uma herética, uma dessas cátaras que se obstinam em considerar toda cópula diabólica. Ele tenta trazê-la à razão, não consegue. Denuncia-a. Ela é presa. Julgada. A prova é incontestável. Ela é queimada (p.65).
Alguém poderá pensar na ironia da situação, considerando as notícias daquela época quanto à abominação ao sexo por parte da Igreja. No entanto, estamos diante de uma narrativa de perversão. A partir da intenção de Gervais de Tilbury, a moça em questão estava encurralada: ou cedia ou morria. Cedendo ou resistindo, ela não tinha saída. Que a prova de sua condenação fosse "incontestável" - afinal, é uma prova apresentada por um clérigo, um homem da Igreja! -, e que a moça tenha acabado na fogueira, seria já infinitamente perverso se não fosse, ao mesmo tempo que perverso, também assustadoramente atual.
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