Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 29

 29. Luto proibido

A compreensão do estado do luto em nossa cultura pode nos ajudar a entender o que tem sido feito em termos da administração social e cultural do sofrimento que experimentamos hoje. Se lembrarmos da definição de luto usada por Freud, o luto seria uma perda de objeto que implicaria um trabalho psíquico para acostumar-se à vida depois dessa perda. O luto seria normal quando superado, anormal, quando insuperável.

Até aí, nada de mais, a vida das pessoas organizar-se-ia com a organização da dor. O sofrimento seria, mais uma vez, parte do cotidiano. O luto, o trabalho de superação. Qualquer pessoa em algum momento viveria o sentimento do luto porque, inevitavelmente, seria impossível viver sem perder algo ao qual se tivesse afeiçoado. Viver implicaria perder e enlutar-se, seria um tempo necessário a quem experimentasse a perda.

O problema de quem é classificado como "deprimido" parece ser o de um luto profundo. Um luto interminável. Pensa-se, então, nas condições do "eu", na fragilidade pessoal subjetiva de quem está sob esta condição. Desse ponto de vista, tudo é lançado sobre a "subjetividade" de cada um como se ela fosse "natural" e não construída socialmente. Ora, essa posição não se sustenta quando vemos as condições sociais, coletivas, culturais, em que se dá o luto hoje. Neste sentido, essa época em que a indústria cultural da libido e da felicidade está em alta pressionando cada um à crença de que nada se perde e de que tudo pode ser conquistado, que qualquer sofrimento pode ser superado, o luto não é tão bem-vindo assim. O luto interrompe a produção e o consumo. Por isso, exige-se que o luto aconteça rapidamente. Ou não aconteça.

Para que a máquina do sistema continue funcionando, precisamos ser diariamente privados de luto, proibidos de viver a experiência da perda, proibidos de perder. Convocados a uma bizarra ideia de progresso, somos proibidos de fracassar. O que o deprimido vive é, na verdade, uma espécie de proibição do luto, uma impotência para o luto. Impotência introjetada no contexto da experiência cultural. Assim, no Brasil enterramos os nossos mortos rapidamente, do mesmo modo que tomamos remédio para não atravessar as inevitáveis dores da vida.

O deprimido é aquele a quem o luto está vetado. Aquele que não conseguiria realizar o trabalho do luto no contexto de uma ideologia da produção e do consumo vividos como únicas dimensões da vida. Assim é que "deprimido"é o estigma daquele que não consegue voltar à norma do sucesso, da felicidade de plástico no âmbito da ação esvaziada no esquema produtivo-consumista.

Nesse contexto, seria de se perguntar se o deprimido e sua depressão não teriam algo a ensinar sobre o estado geral da sociedade.


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