Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 36
36. Condenação prévia e responsabilidade
Esta situação perversa revela o que podemos chamar de "lógica do estupro", tal como ela funciona ainda hoje operando em nosso modo de pensar a relação sexual entre homens e mulheres (falo de homens e mulheres tendo em vista que estas categorias é que põem em jogo este tipo de violência). Na lógica do estrupo, a vítima - uma mulher - não tem saída: de qualquer modo ela será condenada quando, de antemão e sem análise, ela já foi julgada. Cedendo ao estupro ou não, ela será condenada. A vítima é sempre questionada segundo a lógica do estrupo que, desde a época da inquisição, era objeto de um sujeito que faria dela o que bem quisesse. O criminoso, na lógica do estrupo, não é questionado, porque ele é homem e, segundo a lógica do estrupo, não se objetifica um homem.
Na lógica do estrupo toda e qualquer culpa recai sobre a vítima. Ao fazer recair a culpa sobre a vítima, o estuprador não é responsabilizado por seu ato. O estuprador projeta sua culpa no outro e pode aproveitar sua liberdade. Ora, um estuprador não consegue isso sozinho. Ele precisa do apoio de muita gente. De uma sociedade inteira. Na Idade Média, Gervais de Tilbury teve apoio total da Igreja e do tribunal que funcionava segundo leis da própria Igreja, leis feitas por padres: o tribunal da "Santa" Inquisição. "Santa", neste caso, também não é uma simples ironia, mas uma perversão.
Ora, ontem como hoje não há estuprador que queira responsabilizar-se por seu ato. Então, a sociedade pode ajudá-lo. O ato de responsabilizar-se implica a capacidade de reconhecer que outras pessoas "lesadas" por um ato têm o direto de reivindicar reparação. E o direito de exigir proteção contra o crime possível. Mas o estuprador não é culpado por seu ato porque ela age dentro da lógica sustentada socialmente, o que implica uma "razão" das coisas. Ou o estuprador age por razão, como o estuprador Gervais quando ele se achava com "a razão", ou por sua "natureza" de homem - que era sua "razão" -, achando-se "no direito" de fazer sexo com uma mulher a quem encontra por aí, independente da vontade dessa mulher de fazer sexo com ele. Isto é absurdo se pensamos segundo a lógica democrática, mas não é absurdo segundo a lógica do estupro que é antidemocrática e autoritária em seu âmbito mais íntimo e que serve para desresponsabilizar quem detém o poder. A melhor definição de ditadura que podemos usar é essa: ditadura é quando o poder mata sem precisar responsabilizar-se pelo que faz. O poder inventou a lógica do estrupo, ou o estrupo inventou a lógica do poder? A resposta é mais que simples.
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