Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 28

 28. Depressão: uma questão cultural

"Depressão" tornou-se o termo genérico para designar certo estado de sofrimento psicofísico característico de nossa época. Podemos dizer que o mundo se divide hoje entre os que estão deprimidos e os que, ao seu redor, estão perplexos e curiosos quanto ao que seja a depressão, suas causas, sua origem. Neste contexto, os discursos sobre a depressão proliferam. O campo do senso comum é invadido pelos discursos especializados, da psicologia e da psiquiatria. Um acordo entre teorias especializadas e teorias "populares" garante um saber geral quanto à depressão como um mal contemporâneo a ser extirpado.

É certo que se a questão interessa a todo mundo, isso acontece porque todos experimentam em suas vidas algum nexo com ela. Todos estão de algum modo envolvidos com esse mal cujo nome mesmo realiza a coisa. Mas que mal esse mal realmente seria?

A depressão parece ter se tornado um registro afetivo coletivo. Antigamente se falava em estados melancólicos. Popularmente as pessoas diziam: estou meio down e a gíria servia para tornar tudo muito comum e não tão importante. Estar "pra baixo", como fica claro na mais simples análise da etimologia popular contemporânea ( que empresta palavras do inglês por motivos evidentes), nunca foi nada fora do comum. Hoje, contudo, se fala em epidemia de depressão, surto geral de depressão. O mal estar ao qual chamamos depressão generalizou-se. Tornou-se corriqueiro que alguém se sinta mal, psiquicamente falando, e logo apareça alguém, um colega, um familiar, com o diagnóstico genérico da depressão que está disponível no mundo da vida e do qual o seu portador provavelmente ouviu falar nos contextos mais variados. Isto porque pesquisas sobre depressão e sua cura são divulgadas pelos meios de comunicação (tv, jornais, revistas). Já o risco de mistificação por meio dessas pesquisas sobre a depressão não vem ao caso, nem para a ciência, nem para a população.

Ora, o que se chama de depressão não tem sido questionado, não tem sido colocado como questão, mas apenas como resposta. As pesquisas em torno do tema são feitas, a propósito, com o fim de serem divulgadas para um público amplo, criando assim, uma cultura em torno daquilo que foi sugerido como hipótese. Longe do questionamento, uma nova mania coletiva surge junto com a depressão, a mania de diagnóstico. Seja ele científico ou popular, não importa, o importante é a resposta capaz de aplacar a angústia da incerteza.

 No âmbito do diagnóstico popular, a depressão é uma tristeza profunda, tão profunda que pode perturbar o todo da vida. Já segundo o discurso especializado, o deprimido não está apenas triste. Trata-se de algo pior do que de tristeza no caso da depressão. Trata-se de uma disfunção química, de um "transtorno", termo genérico usado na cultura da psiquiatrização da vida que transforma tudo em doença. Uma não-vontade, ou uma vontade de nada que pode ser corrigida com remédios, eis o que está em cena.

De qualquer modo, ficar um pouco triste, tanto no sentido popular, quanto no sentido especializado, segundo um ponto de vista razoável, seria algo normal e desejável diante de certos fatos, das catástrofes pessoais, das questões sociais também. Diante de um fato triste, o razoável, de qualquer ponto de vista, é sofrer. Qualquer pessoa pode se dar conta disso, mas não o deprimido, pois ele, de certo modo, perde a capacidade de pensar, de constatar o mais óbvio. Perde a chance de ver que o sofrimento pessoal sem perceber que há uma maneira de sofrer típica de uma época e altamente forjada por uma indústria cultural do sofrimento.

O deprimido em geral acredita que seu sofrimento é único. Digamos que descoberta do caráter genérico do sofrimento pode ajudá-lo a sair dele. Embora o sofrimento sempre seja único em um sentido lógico, não o é em um sentido comparativo. Indo por um caminho ainda muito simples, é fácil pensar que sofrer faz parte da condição humana. E assim diremos àquele que sofre. Por que, no entanto, o sofrimento - que é algo assim tão "natural"- é vivido como insuportável e, justamente por isso, vem a caracterizar aquilo que chamam de depressão?

Dizer que há um sofrer normal e um anormal expõe que há uma teoria generalizada quanto às normas do sofrimento. Elas existem, por incrível que pareça. E são produzidas. Não suportar o sofrimento soa como anormal. Anormal é também a experiência do sofrimento idealizado como algo anormal. Como as normas dão segurança, tanto a ciência quanto o senso comum esperam que a vida funcione segundo normas. Assim como o sofrimento que nos parece algo tão especial, tão sagrado, e de modo algum sujeito a qualquer norma. As normas são teorias-práticas que orientam nosso modo de ser e agir. Gostamos delas, e por isso mesmo a depressão parece ser uma doença apenas porque foge a certa norma relativa à compreensão do estado mental desejável coletivamente. Ora esse estado mental esconde o sofrimento, ora o fomenta. Quando o fomenta é justamente porque antes pretende sugerir mecanismos para escondê-lo. Mas é justamente aí, neste escapar da norma, que mora certa "riqueza" da depressão, por mais horrorosa que ela possa parecer.

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