Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi -Capítulo 4
4. Afeto contagioso
A pergunta pela origem do ódio não pode ser respondida senão pelo recurso ao círculo vicioso que explica o surgimento de qualquer afeto: é o sentimento experimentado que gera o que é sentido. Isso quer dizer que a tendência a ver um afeto como particular e natural perde de vista o caráter social de sua constituição. Os afetos são aprendidos, são compartilhados entre pessoas. Os afetos fazem parte de processos de cognição e formação subjetiva. Aquele que experimentou amor responde com amor, aquele que experimentou ódio responde com ódio. Amar se aprende amando. Odiar se aprende odiando.
Deste modo, não podemos falar da origem cronológica de um afeto. O ódio não é implantado como um chip em uma pessoa e não se explica por uma "personalidade" naturalmente odienta por oposição a uma "personalidade" naturalmente amorosa. Nada é natural. A compreensão do ódio torna-se possível se ficarmos atentos ao caráter genealógico da experiência do ódio. Ele surge a cada vez que nos deixamos afetar por ele. Do mesmo modo que nos deixamos afetar pelo amor. O ódio não é uma substância presente em algumas pessoas por oposição a outras, mas um afeto que se constitui na experiência partilhada com outros. "Como alguém pode ser tomado pelo "ódio?" é questão que se explica tendo em vista o caráter próprio às emoções, o de serem estranhamente contagiosas.
Quando falamos em afeto falamos do que "nos toca", daquilo que nos diz respeito, que nos concerne. O que nos toca refere-se ao que é de algum modo percebido, por ser comunicado, por ser transmitido. Trata-se daquilo que é partilhado, mas não apenas de cima para baixo, como se tivéssemos, no caso do ódio, recebido uma ordem, consciente ou inconsciente, para senti-lo e nos expressarmos em seu nome.
Se pensarmos nos discursos de incitação à violência - uma das formas expressivas do ódio -, veremos que ela é transmitida de cima para baixo como uma engrenagem acionada de fora. Líderes políticos, publicitários, jornalísticos e todos os que detêm o discurso podem ligar essa máquina incitando ao ódio. Mas o elemento "vertical" que liga a máquina movida pelo ódio não é suficiente para sustentá-lo, de modo que, para que o ódio persista, sua experiência precisa afirmar-se horizontalmente, ou seja, precisa ser partilhada com os pares, com os outros que contribuem para a manutenção da máquina que, pelo fomento do ódio ao outro, transforma a todos em fascistas.
Assim, cada um é engrenagem da grande máquina de produzir fascistas alimentada com o combustível do ódio. Parar essa engrenagem só será possível para aquele que aprender que outro mundo, além da emoção perversa que tantos têm com o estado de coisas odiento, é possível.
A interrupção do funcionamento da máquina de produzir fascistas depende dessa potência até agora esquecida.
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