Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 10
10. Abertura
Para que o diálogo ocorra é preciso haver o que chamamos de abertura ao outro. A abertura é própria da mentalidade democrática. Mentalidade que já viveu a experiência da abertura ao outro em função de circunstâncias cognitivas e culturais. A abertura não existe no caso de uma personalidade autoritária, fechada ao outro também por motivos cognitivos e culturais, motivos que incidem na formação da experiência pessoal e coletiva.
A abertura à alteridade vai além de uma conversa em que põem em jogo argumentos. Ela tem um ponto decisivo no âmbito afetivo. Não do sentimento, apenas, mas do modo como nos "afetamos", no sentido em que somos "tocados" pelo outro. Esse afetar, esse "tocar" é do âmbito da ação. Existem afetações que acontecem sem que estejamos agindo intencionalmente. Necessariamente nos afetamos para o bem e para o mal. Mas no âmbito das intenções, como "tensões" que nos levam a agir, nos obrigam a pensar que a ação é também do nível do fazer, ou seja, diz respeito a algo de que temos consciência. Quero dizer com isso que há muito de intenção, mesmo quando estamos mergulhados na falta de intencionalidade.
Portanto, a pergunta "o que estamos fazendo uns com os outros?" precisa ser nosso pano de fundo consciente, quando nos propomos ao diálogo. Como fazer para me abrir ao outro? Como fazer para que o outro possa estar aberto à minha própria alteridade? Os atos de fala, nesse caso, precisam ser atos generosos, atos de doação. Isso é o mais difícil, mas justamente o que se busca no diálogo. Os atos de fala não podem ser atos de avareza, atos de indisponibilidade. Precisam ser atos de discernimento, não atos de julgamento.
Se a personalidade democrática está aberta ao outro, seu grande desafio ético-político pode ser mostrar como produzir essa abertura ao outro em nossa sociedade. Intuições são bem-vindas. Elas presidem atos criativos em geral, sejam atos estéticos ou éticos. As artes estão no mundo também para nos colocar no âmbito dessa experiência. Para ensinar ética e política. Daí o sentido crucial do lema "como conversar com um fascista" que se torna, na contramão, um imperativo experimental democrático que precisa ser antecipado na conduta de quem quer produzir democracia hoje.
Comentários
Postar um comentário