Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi - Capítulo 37
37. Toda mulher é "estuprável" ou o sexo é apenas lógico
No caso da história contada anteriormente, a moça não foi estuprada por Gervais, mas era considerada por ele "estuprável". Foi para a fogueira porque se recusou ao sexo, mas também porque julgou o sexo que era dela demandado como algo que a prejudicaria. Porém, o estupro potencial que podemos ver neste caso não era visto por Gervais como um estupro. Era, segundo sua lógica de estuprador, apenas seu "direito". O sexo nele implicado não era considerado algo hediondo e diabólico. Por um mecanismo projetivo pelo qual ela deveria ceder a um homem "irresistível", o próprio estupro era, naquele contexto, apenas uma espécie de sexo "lógico" na cabeça autoritária do estuprador. Não um estupro, porque estupro é um nome feio demais com o qual o estuprador não quer ser designado. O crime de Gervais não era, para ele, um crime. E por que não era um crime? Ora, simplesmente porque era ele - e sua instituição, a Igreja - quem ditava as regras, pervertendo o sentido das coisas e acusando o outro de não ter entendido este sentido. A moça - que era vítima - é que foi acusada de crime numa inversão perversa que apenas a lógica do estupro é capaz de sustentar, lógica que é elementar no machismo universal a que mulheres estão submetidas há muito tempo.
Pela lógica do estupro, a mulher é sempre "caça", "presa". Pela lógica do estupro, pensa-se mais no "erro" da vítima do que no "erro" do criminoso. É como se a vítima fosse culpada por não ter escapado, por não ter corrido mais rápido, por não ter desaparecido antes. Ou por ter "parecido" mulher demais. No Brasil e em muitos outros países, como a Índia - para dar o exemplo do país mais estuprador do mundo -, a lógica do estupro faz com que mulheres precisem camuflar-se para sobreviver. mas mesmo assim, bem protegidas, elas serão estupradas. Mesmo com burcas, porque, como a moça desejada por Gervais, o estuprador pensará como Gervais e lançará sobre ela sua condenação.
Melhor não parecer mulher demais, reza a lógica do estupro, mas acrescente-se que na lógica do estupro, ao mesmo tempo, faz-se a apologia da mulher objetificada pela indústria cultural da pornografia, na publicidade, no cinema, na moda, nas revistas e programas de televisão do chamado "universo feminino", uma das armadilhas mais bem-sucedidas na invenção do "ideal feminino". Na lógica do estupro a ambiguidade reina: ser mulher tem dois pesos e duas medidas que são sempre são ditadas segundo a lógica do estupro típica da sociedade masculinista, machista, em resumo: patriarcal.
O status da mentalidade brasileira relativamente à questão do estupro define a vítima como culpada. Ora, a lógica do estupro não é outra que a da dominação em geral, mas aplicada às mulheres. É a mesma lógica que permitia que brancos - "donos" de negros por eles escravizados - privassem de liberdade, espancassem e matassem pessoas negra. É a mesma lógica, infelizmente, que se aplica por parte do governo - ou donos do poder em geral - aos pobres hoje em dia.
Tendo em vista ainda que a ampla campanha "Não mereço ser estuprada", que circulou pela internet, teve efeitos reativos tais como manifestações organizadas por grupos de homens que, como herdeiros de Gervais, o estuprador medieval, afirmam "Tenho direito de ser machista", podemos meditar um pouco mais na mentalidade estupradora, infelizmente comum tanto em homens quanto em mulheres. Pensemos, primeiramente, nas mulheres (os homens são um problema mais complicado de entender e falaremos deles mais à frente). Quanto às mulheres que pensam assim, podemos dizer que não refletiram sobre o que lhes concerne. Neste sentido, é preocupante que 655 dos entrevistados em uma pesquisa do Ipea (homens e mulheres) tenham concordado com a frase "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". Ao mesmo tempo, considerando que mais de 90% das pessoas entrevistadas pensam que "marido que bate em mulher deve ir para a cadeia", fica evidente a ambiguidade que habita a mentalidade quanto ao sentido da violência contra mulheres.
Das pessoas em geral não se pode dizer que sejam a favor da violência contra mulheres pura e simplesmente, mas que entendem que o estupro é um tipo de violência "diferente" em função de algo que a mulher fez - daí a questão do "merecimento". Esta violência que é o estupro - na lógica do estupro - é uma violência de certa maneira "merecida" pela vítima que, a rigor, não é mais tido como vítima, mas, numa inversão perversa, torna-se "culpada". Isso não quer dizer que 65% dos brasileiros sejam a favor do estupro, não é simples assim. Também não quer apenas dizer que o estupro seja um tipo de violência que tenha a participação da vítima como culpada.
Não é lógico neste sentido. O estupro é o ato em que a outra - a estuprada - não tem nenhuma chance de defesa porque a priori está condenada.
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