Como conversar com um fascista - Marcia Tiburi -Capítulo 5
5. Paranoia como condição social
Há épocas em que predomina o amor e épocas em que predomina o ódio.
O problema inevitável ao se teorizar sobre o amor e o ódio é a impossibilidade de avaliar aquilo que é subjetivo e que, no entanto, nos domina. Experimentamos o ódio sem entender dele e, por não entendê-lo, muitas vezes não temos recursos para estancá-lo.
Amor e ódio são dessas forças que, sendo opostas, ao mesmo tempo andam juntas compondo um jogo de forças. Ás vezes se aproximam demais. São como duas linhas que tendem a se enroscar enquanto flutuam no vento histórico. Pensamos em "cronologia", em progresso e decadência, mas nos tocamos pouco dos afetos que costuram e descosturam o continuum da história . Ora, poderíamos escrever a história do amor e a do ódio considerando que não há período histórico que não seja regido por eles. Seria a história das influências afetivas nas ações e realizações humanas. Assim, por exemplo, poderíamos contar a história da relação entre a humanidade e a natureza pensando em como a primeira odiou a última. Ou como o próprio afeto odioso ou amoroso nos permite criar uma biografia.
Não seria sem propósito perguntar quando amamos mais, quando odiamos mais. As ondas de amor e ódio que sustentam e abalam as sociedades não podem ser controladas simplesmente, mas podem ser manipuladas. Esse controle é possível pela linguagem porque ela é a grande produtora de afetos. Por meio de mecanismos que só parecem sutis a quem se mantém ingênuo, fomenta-se o ódio em escala social pelo bombardeio de imagens terríveis, como as que vemos na televisão. A distorção de fatos para convencer o povo também se liga a essa estratégia de manipulação dos afetos por meio de discursos. Na origem de todo ódio está a básica fofoca, o assédio moral, a maledicência em geral.
Med'ódio
O modo como se produz o medo relaciona-se diretamente com a produção do ódio. São afetos associados. A sociedade que promove a insegurança - e vende "segurança"por todos os lados - depende do sucesso do medo. Medo da economia e da política e, em primeira instância, sempre o "medo do outro".
Em seu estado enrijecido, o medo pode se tornar paranoia. A paranoia devém ódio. Podemos então falar em medo-ódio. "Med'ódio" seria uma palavra muito feia para uma coisa que nos faz muito mal: uma espécie de odiar intransitivo, quase que odiar por odiar. Como visão de mundo, a paranoia serve à negação do outro a quem o paranoico deseja destruir. A origem da paranoia nos escapa, mas sabemos de seus efeitos: ódio para todos os lados, sem limites.
Em termos muito simples, podemos dizer que o amor é um horizonte de compreensão que tem em vista a real dimensão do outro, que não o inventa em uma projeção, que permanece aberta ao seu mistério. Se o amor é aberto ao outro, o ódio é fechado a ele. Tendemos a não querer ver o ódio que nos fecha porque ele nos diminui. "Não querer ver" é uma armadilha, pois todos somos afetados pelo ódio e contribuímos com a nossa parte para a sua persistência.
Pensamos que o ódio é sempre algo que está no outro e esse é um engano no qual cai apenas aquela pessoa que nunca imaginou que é o outro de um outro. Estamos tão ligados uns aos outros que somos capazes de perder a noção de nossas ligações. O inconsciente começa a agir por nós exatamente nesse ponto.
Quando falamos em afeto queremos dizer que algo "afeta", que nos contagia, que nos provoca. O ódio tem a forma de um miasma, ou seja, de uma atmosfera. Ele existe como um ar que se respira. Nos faz sentir coisas que talvez nunca tivéssemos sentido. Ora, o ódio não é um sentimento que estaria guardado dentro de nós, esperando para aparecer, mas uma experiência possível a cada instante no contato que temos com o outro que nos afeta. Nesse quadro geral, perguntar sobre o estado da experiência afetiva do ódio no mais íntimo de nós pode ser um bom começo para nos livrarmos dele.
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